Bruno (conto/suspense)

by AlonEvil

O cheiro doce de alguma bobagem infantil é espalhado pelo ar, assim como a alegria inocente de quem não teme nada além do Sol quente que queima sua pele branca e cheia de sardas. É quarta-feira e eu acreditava que as crianças deveriam estar numa escola, mas sou a prova viva de que enganos acontecem mesmo quando planejamos e antevemos inúmeras possibilidades.

Guardo a garrafa, afinal, crianças são altamente influenciáveis, e utilizo todos os músculos da minha face em busca de um sorriso simpático e contínuo, mas pelos muitos olhares desagradáveis que recebo, descubro que a simpatia é algo para poucos, e se não for sincera é melhor deixar de lado.

Em uma dessas lixeiras coloridas como um arco íris eu deixo o isqueiro e descubro que o ultimo cigarro foi mesmo o desta madrugada, quando a chuva era a responsável pela sinfonia que deveria embalar meu sono, mas despertou Cronos e espantou Morpheus, logo, nicotina e outras drogas lícitas foram minhas parceiras.

Meu olhar pesado e minhas mãos tremulas denunciam o desespero por quatro noites não dormidas, poucas refeições saudáveis, muitas palavras acumuladas em minha garganta e nada de positivo para compartilhar.

Ouço um barulho, e quando acredito que sejam as crianças pulando mais uma vez do brinquedo em forma de crocodilo rosa – sim, rosa, uma vez que assim iludimos nosso sentido tornando um predador mortal em algo afável por ser rosa – sou ludibriado pelo cansaço, e esqueço que minha mochila esta desgastada e o fundo se rompe, deixando a garrafa do mais fino e puro vinho luxuoso de $5 cair, me levando ao desespero de ser descoberto.

“Hey, você…onde pensa que vai?! o que é isso?” – indaga a já carcomida e não muito ágil professora das crianças, que falha em pegar no meu braço e parece sofrer de algum mal na coluna.

“Vou embora, não era pra estar aqui, quero ir embora” – digo com a firmeza que me permite o pouco de força que ainda tenho para me manter em pé e apto a responder…

“Venha cá! Onde pensa que vai, quero ver o que mais carrega!” – a velhice parece dar mais moral e força as palavras, mas a falta de atividade física faz a velha ficar pra trás depois de um breve correr que me lanço.

As crianças começam a ficar em nossa volta, como num ritual tribalístico em que dois guerreiros são postos a prova e incentivados por gritos de guerra “pega ele! pega ele!”.

Estou sozinho em meio a uma multidão que parece me odiar apenas por estar carregando uma garrafa que fez o favor de quebrar por estar com uma mochila velha…

Em meio ao pandemônio, a velha parece mais cansada que deveria, mesmo pra sua idade, e lhe falta o ar, o que lhe leva a por as mãos no peito, como se tivesse um punhal enfiado em seu coração, e os gritos de guerra viram um coro de desespero e lamuria, pois mesmo as crianças sabem quando algo não vai nada bem.

“Ela vai morrer”, penso eu, mas devo ter pensado alto demais, quando uma bola de barro é jogada na minha cara por uma das crianças, em retaliação a minha incontestável afirmação.

Suada e em nítido desespero, a velha cai no chão, levemente umido devido a chuva que caiu durante a noite, e o barro serve de berço para o abraço da morte, que tem como coro de fundo o desespero e choro de mais ou menos vinte crianças…

Sem perceber estou lavado em lágrimas, soluçando, e por um breve momento lembro que ainda tinha uma tarefa para entregar…um desenho em que o parque estava vazio, apenas uma única pessoa apreciava sua quietude e verde, o cantar de seus pássaros e o rústico perfume de antiguidade devido as enormes árvores que ali habitam.

Fiz o desenho hoje pela manhã, quando sentei para descansar um pouco.

A velha se chama Allana Doptor, ela foi minha professora.

Me chamo Bruno, tenho oito anos, muito prazer.

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